Dois levantamentos de opinião pública divulgados nesta segunda-feira colocam o Brasil diante de um retrato de si mesmo que combina vulnerabilidade e autoestima em proporções que a sociologia raramente consegue capturar com tanta clareza empírica. O primeiro dado, extraído de pesquisa do instituto Datafolha, indica que 41% dos brasileiros afirmam que o crime organizado alcança seus bairros de forma direta e perceptível, número que sintetiza a extensão geográfica e social da penetração das facções criminosas no tecido urbano do país e que ajuda a compreender por que a segurança pública se tornou o principal tema de campanha da eleição presidencial de outubro.

O índice de 41% não é distribuído de forma uniforme pelo território nacional: ele é significativamente mais alto nas periferias das grandes metrópoles do Norte e do Nordeste, onde o Comando Vermelho e o PCC expandiram sua presença de forma acelerada nos últimos anos, e nas regiões fronteiriças do Centro-Oeste e do Sul, onde o tráfico internacional de drogas e de armas encontrou rotas consolidadas que a fiscalização federal ainda não conseguiu interromper de forma sistemática. A pesquisa, que ouvirá amostra representativa da população adulta em todos os estados, complementa os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que registrou em 2025 uma taxa de homicídios de 23,4 por 100 mil habitantes, nível que coloca o Brasil entre os 20 países mais violentos do mundo em termos absolutos.

O segundo levantamento é de natureza distinta e surpreende em sentido oposto: a pesquisa Marca Brasil, produzida pela CNN Brasil com metodologia inédita aplicada em 27 países, revela que os brasileiros confiam mais em si mesmos do que em estrangeiros, preferência de confiança que reflete um senso de identidade nacional robusto e uma percepção de competência própria que coexiste, paradoxalmente, com as altas taxas de insatisfação com as instituições públicas que outras pesquisas registram. O dado é um convite à reflexão sobre a diferença entre a percepção que os brasileiros têm de si mesmos como indivíduos e comunidades, positiva e orgulhosa, e a percepção que têm do Estado e das instituições, crítica e desconfiante.

A combinação dos dois dados, 41% com crime organizado no bairro e alta confiança interpessoal nas comunidades, pode parecer contraditória, mas é, na verdade, sociologicamente coerente. Em contextos de alta insegurança e baixa confiança nas instituições formais de controle, comunidades desenvolvem redes de solidariedade informais, de vigilância mútua e de cooperação local que funcionam como substitutivos parciais da proteção que o Estado não oferece. Essa racionalidade adaptativa é documentada em estudos de comunidades vulneráveis em todo o mundo, de favelas brasileiras a bairros de cidades mexicanas, e ela ajuda a explicar como sociedades com altas taxas de violência conseguem, ainda assim, manter funcionando seu tecido social cotidiano.

Para uma leitura mais completa da pesquisa Marca Brasil e da pesquisa Datafolha sobre crime organizado nos bairros, com análises que contextualizam os números em suas dimensões regionais, históricas e políticas, acompanhe a cobertura da HostingPRESS Agência de Notícias.

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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe

HostingPRESS — Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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